Às vezes doi, arde, pesa. Mas sempre se pode remediar,
soprar, repartir o fardo. Tem sempre alguém por perto que toma para si uma das
abas da bagagem. Aos poucos o peso vai se atenuando, começamos a nos adaptar ao
ato de carregar, até que encontramos o encaixe ideal e aquilo passa a não mais
parecer tão incômodo. A alma, antes em reboliço, começa a retomar as rédeas,
como água turva, pela precipitação de substâncias opacas, que vai aclarando
pouco a pouco. No fim, nos pegamos revivendo mentalmente aquele pretérito
recente e analisando nossa atuação. Aprendemos, crescemos. Retiramos o verbo
viver do infinitivo e o conduzimos para o gerúndio. Estamos vivendo, afinal.
Tudo movido pela sabedoria é válido. Avante sempre.
sábado, 1 de dezembro de 2012
sábado, 15 de setembro de 2012
Quero
Quero óculos novos, vencer quando jogo, nutrir sentimento, notar um talento, andar de mãos dadas, passear de jangada, cantar a canção.
Quero abraço apertado, dormir ao teu lado, sorrir da piada,
aprontar trapalhada, fechar a cortina, pular na piscina, ter uma paixão.
Quero criar um bichinho, provar teu carinho, não ter
muito tédio, sarar sem remédio, varrer a calçada, saber que é fachada, voar de
balão.
Quero pular de um pé só, desatar o nó, mudar o cabelo, ter
jeito faceiro, criar um estilo, lembrar tudo aquilo, tremer de emoção.
Quero comer sobremesa, fazer gentileza, olhar da janela,
apagar a vela, viver muito tempo, não ter contratempo, falar alemão.
Quero pintar a parede, deitar numa rede, cair sem chorar,
correr até cansar, subir a ladeira, aquecer na lareira, ganhar teu perdão.
Quero chorar de saudade, falar a verdade, voar ao espaço, pegar meu pedaço, jogar uma isca, ser dos que arrisca, montar coleção.
Quero chorar de saudade, falar a verdade, voar ao espaço, pegar meu pedaço, jogar uma isca, ser dos que arrisca, montar coleção.
Quero andar sem destino, crer no que imagino, amar sem
medidas, chorar na partida, escrever um artigo, ter bem mais amigos, encontrar
solução.
Quero um livro pra ler, querer e te ter, plantar a semente, sair pela tangente, cantar tudo errado, falar adoidado, beijar tua mão.
Quero banho de chuva, um cacho de uva, compor um barulho,
sentir muito orgulho, olhar a esquina, lanchar na cantina, ouvir o coração.
Quero criar poesia, comer a fatia, sorriso no rosto, não pagar imposto, querer o teu bem, ir muito além, não viver em vão.
Sossega
Sossega.
Que poderias fazer, tu, diferente do que tens feito agora?
Sei que terias muito a elencar
E eu também teria inúmeras coisas a te sugerir,
No entanto, te digo apenas,
Sossega.
Cultiva a serenidade antes,
Que tudo, alfim, de precisão se revestirá.
Inclina-te aos objetivos munido de paz interior,
Então terás maiores chances de compreender os resultados, sejam quais forem.
Sossega.
Assovia com a alma até que o som produzido ponha em repouso tua mente.
Povoa o espírito com pitadas e porções generosas de sobriedade.
Faz um afago no teu coração com as mãos da cordura.
Põe calor e menos temor no que fazes.
Sossega.
Respira os ares da mansidão
E espalha pétalas com teus pés pelas escolhas onde andas.
Segura-te naquilo que fomenta a força e a fé.
Caminha sem pressa e com rumo definido, mesmo que o destino seja a falta de
rumo.
Aplaina os ruídos.
Daí então, assovia, respira, caminha, sossega... Sossega.
Aplaina os ruídos.
Daí então, assovia, respira, caminha, sossega... Sossega.
quinta-feira, 6 de setembro de 2012
Intransitivo
Entre uma leitura e outra o
pensamento se perde. Caminha. Vazio afora, boas lembranças povoam a
mente ao passo que um agradável sorriso se segue. Uma certeza: é bom
o sabor da vida. Respeito a vontade externada pelo pensamento e decido
narrar seus passos. Talvez os mais sensatos me dissessem
para retornar à leitura, considerando ser este lapso um desperdício de
tempo precioso. Mas não. Simplista demais. Um mundo por trás desta
viagem. No distanciamento do pensamento, convido o ar a
ventilar as ideias e os conceitos serão muito melhor acamados no
retorno. Então, por onde andará o pensamento? Longe e ao mesmo tempo aqui. Sigo suas pegadas, como fiel sombra em tempos de sol. Ele te visita.
Pela fresta da porta contempla teu sono, acompanha tua respiração, te
sente. Ousado, se aproxima e sopra em tua face o desejo de
que tenhas o sono dos anjos. Agora, sentado à beira da tua cama, te
acaricia os cabelos, escorrega a mão pelo teu rosto. Poderia ficar ali até o fim. Nada mais importante. O mundo é aquilo.
Intransitivo. Fala por si. Para mim, todo o sentido. Mas a razão vem
me chamar. Questiona-me se devo mesmo invadir teu espaço,
furtar-te um pouco na calada da noite e desenhar em seguida todo um
enredo, faça ele sentido ou não. Digo que sim, que devo; não moro mais em mim. Há tempos fiz as malas. Rumo e tempo sem definição...
Saciado o desejo do imaginário, que neste instante se vê em paz, hora de
voltar. Antes de sair, ele puxa teu lençol bem
comedidamente e te protege de qualquer frio que queira tecer
importunações. Aqui, novamente, já em companhia do pensamento, a dúvida:
consigo me estender um pouco mais pela causa nobre que é a ciência, ou
prevalecerá minha insuficiência? Dado o adiantado da hora e a iminência
de soar o canto das aves que primeiro acompanham o nascer do
dia, me rendo. O pensamento e as palavras me conduziram ao melhor
passeio possível; te fizeram presente. Agora me despeço. É certo, muito melhor que antes.
quarta-feira, 13 de junho de 2012
Sanidade em desalinho
- Preciso ir aqui. Você me espera
um pouco? É rápido. Preciso ir escrever tudo aquilo que tenho todos os motivos
do mundo para te dizer e todos os motivos do mundo para não revelar. São meus
ímpetos, são minhas fraquezas. De repente você tivesse que conhecê-los, mas não
vai. Não há por quê. São aquelas coisas que a noite, minha eterna companheira,
me ajuda a construir mente e coração a dentro. Que raios de sequência musical é
essa? Não está ajudando. Eu prometo não demorar, até porque não disponho de
todo o tempo que às vezes – só às vezes! - eu queria ter. O relógio me é
ingrato, enquanto eu o devoto tanta esperança. Minha vontade era de entrar por
aquela porta e sair madrugada afora, mas entendo que não é de bom tom te deixar
sozinho à sala. E a etiqueta, não é mesmo? É por isso que eu repito: volto
logo; e adianto que esse logo é relativo, porque enquanto ele perdurar, muita
coisa acontecerá, muita coisa sofrerá mutação aqui dentro. Olho para trás e me
dou conta de como tanta coisa mudou, enquanto muita coisa aconteceu. Até
aprender a esperar eu consegui e também a entender que se jogar à emoção às
vezes é bom. É por isso que eu estou indo ali te dizer para o papel tudo que
tem vontade de me sair do coração boca afora. Quem sabe algum dia eu não
te escrevo uma carta? Cuidadosamente escolherei as palavras, dobrarei o papel para
colocar no envelope, delinearei, temendo rasuras, teu endereço e escolherei o
selo mais delicado para combinar com a pureza do sentimento com o qual todas aquelas
palavras serão escritas. Somente para você. Uma única vez. Mas, voltando, nem sei mais se devo ir. Aquele ímpeto - mais um para a coleção - está se retirando à francesa; já pressinto a partida. Isso é bom. Eles sempre
vêm e vão mesmo... Nenhuma novidade. As novidades dizem respeito apenas à
questão motivacional: esse foi por você.
quarta-feira, 29 de fevereiro de 2012
Logo ali
Quero abrir a porta e seguir até o nada. É isso. O maior desejo do momento é esse. Quero destravar o trinco que embarreira minha caminhada despretensiosa e seguir tranquilamente por entre as veredas logo ali. Algo me diz que em algum lugar haverá um vasto rio e que, quando me deparar com ele durante essa expedição, sentarei à beirada e imaginarei um barquinho distante percorrendo paciente a imensidão. Contemplarei o fluir de sua caminhada e a calma com a qual transpõe os empecilhos. Ele aportará em algum lugar quando os ventos avisarem que a jornada terminou. Sensação de dever cumprido terá ele? Ou de que algo mais pode ser feito? Não sei. Sei, é bem verdade, que me vejo como o barquinho. E é só o que eu digo agora.
terça-feira, 10 de janeiro de 2012
Noite, minha
É... eu trocaria sim as paredes de casa pela brisa da noite. O aconchego do lar não está à altura das diversas possibilidades que a noite me apresenta. As paredes tornam tudo previsível, enquanto a noite coloca em minhas mãos punhados e mais punhados de perspectivas. Posso simplesmente seguir sem planos, sem destino, sem regras e perceber todo o sentido que isso tem. Posso arriscar sem temer os perigos e ver todo o prazer que ancora nisso; olhar para o nada e contemplar o que de mais belo há; conversar com o silêncio e captar seus sábios dizeres; sentir o mais puro aroma de vida exalado das coisas mais simples. Posso dançar sem seguir canção alguma e posso ouvir as mais lindas canções sem qualquer barulho aparente. Caminhar sozinho e sentir falta apenas de nada, perceber a beleza por trás de tudo que me é familiar, mas que nunca me havia capturado a atenção. A noite permite que eu me revele, me encante, que eu sinta, perceba, compreenda, reveja, que eu ame. Ela me arranca as amarras, me diz "Vá!", com toda a certeza de que eu voltarei, e me acolhe. Ela me toma pela mão e me mostra rumos antes encobertos, além de permitir que eu experimente inefáveis sensações e teça válidas reflexões a respeito da minha existência. Sinto-me preenchida em companhia da noite. Por isso, digo que a noite é mais minha do que o dia.
domingo, 4 de dezembro de 2011
Teias
E o que será que é viver? Ouso afirmar que a existência traduz-se numa constante luta contra um emaranhado de teias que a nós se apresentam. Nunca se está completamente liberto. Quando saltamos fora de uma, até alcançamos a sensação de plenitude. Mera sensação. Nada mais. Um passo à frente e outro enredo nos prende. Novo desafio. Teias. Umas vezes mais complicadas... outras mais amenas... Sufocam-nos? Arrebatam-nos de forma singular? Desafiam-nos a buscar as fórmulas de vencer cada entrave com que nos deparamos pelo caminho. Alguns se entregam. Fiam-se no pensamento de que, com o passar do tempo, tudo se resolverá, as teias vão se desfazer e tudo ficará bem. Outros, diferentemente, buscam as mais diversas formas de, passo a passo, avançar, desvencilhando-se aos poucos dos empecilhos, sem dar acolhida à inércia, até chegar ao final. Nem sempre é fácil figurar dentre os que compõem o segundo grupo. Há muito em jogo. Fatores determinantes. Circunstancias preponderantes. O certo é que cada teia nos deixa uma marca. Não saímos ilesos de nenhuma delas. Ficam conosco os resquícios; a experiência permanece. Ao menos essa certeza temos, porque a certeza de que teremos êxito na transposição da teia na qual estamos inseridos agora, essa jamais teremos.
domingo, 10 de julho de 2011
Viver e saber significar
Engraçado. Às vezes acordo com um pensamento fortemente pessimista a respeito da vida; outras vezes o otimismo sobre a minha existência é tão significativo que influi diretamente no positivo desenrolar das diversas áreas em que ela é dividida. De repente me pergunto por que isso acontece; por que essa discrepância de visões a respeito de uma vida que é única - que é a minha vida! -, em espaço de tempo tão curto.
Que diversos fatores influem, é fato, mas há um que merece destaque. Nos dias em que acordo com posições definidas, com a mente calma e com as conceituações certas, tudo caminha mais facilmente. É indispensável atribuir o justo significado que as coisas merecem; um significado livre de deturpações, livre de pesados julgamentos, livre daquela carga particular que faz com que consideremos tudo na nossa existência um grande fardo.
O problema é que quase nunca conseguimos ver as coisas desse modo. São raros os momentos em que nos encontramos em um estado desvinculado da parcialidade. Quase sempre vemos as coisas em primeira pessoa, passando a desferir julgamentos precipitados, concebendo a vida como um grande emaranhado, colocando-nos na posição de malfadados.
Cometemos esse erro constantemente com as palavras. Um bom exemplo é a palavra gratidão. A torto e a direito nos dispomos a falar de gratidão e de ingratidão, sem qualquer competência e sem, sequer, possuir o domínio do que estamos dizendo. Constantemente afirmamos que alguém foi ingrato conosco e passamos a nutrir certo sentimento negativo pela pessoa, compreendendo que essa é a melhor atitude do mundo, que estamos no nosso direito. Pergunto-me: sabemos o real significado da palavra gratidão?, afinal, isso é pressuposto indispensável à compreensão do sentido de ingratidão.
De acordo com Domingos Paschoal Cegalla, gratidão é: “s.f. sentimento de quem é grato; reconhecimento por benefícios recebidos: Tenho muita gratidão pelos meus professores.” Semelhante descrição Aurélio Buarque de Holanda nos dá. Pelo que se observa, em momento algum os grandes dicionaristas citaram a palavra contraprestação como sinônimo, tampouco recompensa, troca, permuta.
Curioso, não? Não é isso que, na maioria das vezes, temos em mente. Vemos a gratidão como sendo a disposição de alguém em ofertar algo em troca por alguma coisa que fizemos. Há sempre uma espera permeando aquilo que outrora fizemos e por isso nos sentimos aptos a constatar que houve ingratidão, e a propagar essa constatação, quando não recebemos prontamente uma contrapartida.
Gratidão não é isso. Gratidão tem um sentido mais puro, destituído de materialidade; está mais ligada a uma disposição interior espontânea, tanto de quem recebeu o benefício, quanto de quem ofertou: quem recebe poderá alimentar um sentimento sincero de reconhecimento e quem oferta terá a capacidade de identificar as proporções desse reconhecimento. Aquele que faz algo tendo por base interesses, sejam lá quais forem, não é merecedor da sincera gratidão e não possui autoridade para exigi-la ou para apontar alguém como ingrato. A ele apenas a recompensa nas mesmas dimensões do favor (sim, favor!) prestado.
Cometemos muitas confusões ao longo da nossa caminhada. Isso torna tudo mais complexo e atrapalha o tranquilo fluir, obrigando nossas paradas para correções. À medida que adquirirmos a capacidade de atribuir justa significação aos pontos próprios de nossa existência, passaremos a reconhecer o quão fácil é viver e aprenderemos a olhar mais frequentemente a existência pelo lado positivo. No fim de tudo, quem sabe, seremos gratos à vida, no melhor e mais puro sentido da palavra.
sexta-feira, 8 de abril de 2011
Instante
De repente a porta se abre. Apesar de algo esperado, causou certa palpitação ao coração. Ela lançou um olhar rápido à porta, mas logo voltou a debruçar os olhos sobre o livro que estava a ler. Ele caminhou em direção a ela:
- Aqui estão os filmes que havia prometido trazer.
- Obrigada. Lembro-me.
Durante todo o tempo em que lançava palavras a ela, um sorriso se mantinha em seus lábios e gesticulava, como sempre costumava fazer durante explanações. Eram gestos bem peculiares. Ela matinha uma expressão serena. Tentava não demonstrar qualquer emoção. Talvez quisesse evidenciar aquilo que de forma latente a recheava, todo aquele ressentimento. Era tudo tão recente. Agir naturalmente ainda era custoso.
Vez ou outra lançava-lhe um olhar furtivo, mas não queria que seus olhos se cruzassem.
- Ainda não consegui o cd que você havia me pedido, mas assim que tiver em minhas mãos, te falo.
- Não precisa se preocupara mais com isso.
- Mas eu vou tentar.
- Esqueça, não tem problema. Não havia também um livro que você traria hoje?
- Verdade. Mas ainda não tive tempo de separar.
- Tudo bem, então.
Sem qualquer despedida, fez menção de se dirigir novamente até a porta, virou-se e começou a caminhar.
- Obrigada - disse ela num ímpeto de finalizar aquele casual diálogo.
Ele continuou a caminhar, ela não lembra-se se ele respondeu algo. Durante o percurso, trocou algumas formais saudações com alguém que encontrou. Ela seguia com o olhar cada passo que ele dava. Até que, sem olhar pra trás, ele abriu a porta e saiu.
Com os olhos de volta ao livro, ela tentou retomar o que fazia momentos antes de ele entrar, mas não conseguiu. Aquela cena se repetiu em sua mente várias e várias vezes após.
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